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Os três primeiros anos são o período em que a criança mais aprende


Os três primeiros anos são o período em que a criança mais aprende, por Beatriz Ferraz – A especialista em primeira infância fala sobre a importância de ter educadores bem formados em creches e em escolas infantis para o desenvolvimento adequado das crianças.

Desde 2014, o Ministério da Educação elabora um documento que estabelece as competências que todos os alunos do Brasil, de cada etapa da educação básica – da educação infantil ao ensino médio –, têm o direito de dominar. A Base Nacional Comum Curricular tem o objetivo de orientar a atuação de professores e reduzir desigualdades de aprendizagem.

O documento estabelecerá, pela primeira vez, o que cada criança entre 0 e 6 anos de idade tem o direito de aprender nas escolas de educação infantil. Até então, essa etapa não tinha orientações pedagógicas formais e sua importância era reconhecida majoritariamente por seu caráter assistencialista, de cuidar das crianças na ausência dos pais. Agora, a Base oficializa o papel educativo do ciclo. “Pesquisas mostram que é durante os primeiros 3 anos de vida que as crianças têm maior potencial de aprendizagem”, afirma Beatriz Ferraz, doutora em educação e consultora da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV).

Segundo a especialista, o cuidado, a brincadeira e a aprendizagem precisam estar presentes na educação infantil. E cada detalhe dessas funções precisa ser cuidadosamente planejado no currículo da escola para promover o desenvolvimento das crianças pequenas. “A Base Nacional Comum, em construção no Brasil, será um passo importante para garantir esse aprendizado”, diz.

Beatriz é integrante do Movimento Pela Base Nacional Comum, um grupo não governamental de educadores que contribui para a construção do documento. Em entrevista a ÉPOCA, ela avaliou o conteúdo da versão atual da Base e falou sobre os desafios da implementação de suas medidas.

ÉPOCA – Qual é o papel da educação infantil no desenvolvimento de um indivíduo?
Beatriz Ferraz –
 Na primeira infância, a educação infantil tem um papel complementar ao da família na educação das crianças. A escola deve ser um espaço de produção e perpetuação da nossa cultura. A criança aprende a andar em qualquer lugar, mas na escola ela aprende a andar com destrezas específicas. Atividades de pular corda, por exemplo, estimulam essa habilidade física. A escola ensina habilidades de convívio social diferentes das que a criança aprende em casa.

ÉPOCA – Quais as experiências que a criança deve viver nessa etapa de ensino?
Beatriz – 
É muito importante que todas as experiências ofertadas sejam baseadas em situações de segurança, de vínculo, de afeto. A criança precisa disso para se sentir segura e preparada para investir na descoberta do mundo que a escola oportuniza. A linguagem nessa fase baseia-se nas brincadeiras e nas experiências lúdicas. É por meio delas que a criança pequena constrói seu conhecimento. O professor deve estar atento às brincadeiras para fazer interferências pedagógicas quando for pertinente sem, com isso, cercear a liberdade da criança. 

ÉPOCA – Qual o momento de começar a introduzir atividades mais sistemáticas, tradicionais?
Beatriz -–
 As atividades lúdicas, que têm o papel de despertar a curiosidade e a ação, devem estar presentes durante toda a educação infantil e no inicio no ensino fundamental. As atividades mais sistemáticas, de exercícios, repetição, cópia e memorização, não precisam entrar nessa etapa. É completamente possível que, nesse momento, as crianças construam conhecimentos por meio de experiências lúdicas planejadas com intencionalidade pelo professor.

ÉPOCA – Para o desenvolvimento da criança, quais os perigos de ela não ter acesso a uma educação infantil de qualidade?
Beatriz – 
Se a criança não frequentar uma instituição de Educação Infantil, ela vai se desenvolver menos? Muito possivelmente sim, mas em relação a algumas habilidades e conhecimentos. Por outro lado, vai desenvolver mais outras coisas, a partir da convivência em casa – se a relação familiar for positiva. O importante é chamar a atenção para a questão da qualidade da experiência. Segundo pesquisas, uma criança que frequenta uma educação infantil de baixa qualidade chega a ter resultados negativos se comparada com uma criança – na mesma condição social e familiar – que não frequentou a etapa de ensino. Ir para a escola por si só não favorece nenhum desenvolvimento específico. A escola precisa ser uma escola de qualidade. Precisa conhecer muito sobre o desenvolvimento da criança e sobre como ela aprende para ter um impacto positivo.

ÉPOCA – Quais os impactos que uma educação infantil de qualidade tem na vida de alguém?
Beatriz – 
Existe uma pesquisa nos Estados Unidos que já tem 40 anos de análise. Ela acompanhou dois grupos de crianças vulneráveis: um que frequentou uma pré-escola de qualidade e outro que não frequentou. O que se observa é que, entre as crianças que frequentaram uma boa educação infantil, os índices de repetência e evasão escolar diminuem e os índices de aprendizado aumentam. No longo prazo, na vida adulta, se verificou uma queda de criminalização e de envolvimento com drogas. Até a saúde aumenta. São benefícios, portanto, para além do cognitivo em si. Estamos falando também de um indivíduo, que consegue viver plenamente sua cidadania.

ÉPOCA – Qual é o melhor momento de iniciar a alfabetização?
Beatriz – 
O processo de alfabetização se dá desde o início, quando a criança entra em contato com o mundo letrado. Ela vai ao supermercado com os pais vê os rótulos dos produtos, escuta histórias, folheia livros. Nesse caso, a polêmica está no processo de sistematização e compreensão do código da escrita. Para a criança conseguir ler e escrever com certa fluidez, é muito importante que ela tenha conhecimentos anteriores a isso – que devem ser trabalhados na educação infantil. Não adianta eu pedir que uma criança de 7 ou 8 anos produza um texto se ela não tiver repertório textual.

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ÉPOCA – Como construir esse repertório?
Beatriz – 
Uma criança que ouve histórias desde cedo exercita habilidades. Ela sabe como as narrativas começam e expande seu vocabulário. Quando ela finalmente é convidada a escrever, terá repertório para refletir sobre como essa letras se organizam para formar palavras, frases e texto. É importante entender as habilidades que precisam ser contempladas na primeira infância. Assim, quando a criança tem 6 ou 7 anos, o processo de sistematizar a alfabetização se torna muito mais tranquilo.

ÉPOCA – O que mudará na educação infantil agora que ela será contemplada pela Base Nacional Comum Curricular?
Beatriz – 
Não será uma mudança na rotina dos alunos ou no conteúdo contemplado pela etapa. Passaremos a ter um documento norteador daquilo que todas as crianças têm o direito de aprender a partir do momento em que frequentam uma creche, uma pré-escola. Hoje, as experiências variam muito de acordo com a realidade das escolas, com a região em que elas estão. O documento tem potencial de trazer maior equidade no acesso ao conhecimento e, portanto, reduzir a desigualdade que existe. Além disso, ao sistematizar expectativas, a Base traz instrumentos para o professor, para a escola e para os pais planejarem atividades e fazerem intervenções que promovam a aprendizagem necessária.

ÉPOCA – Você tem acompanhado a elaboração das diretrizes curriculares para a educação infantil? Como avalia o trabalho?
Beatriz – Faço parte de um grupo que orienta a implementação das diretrizes da Base. Acompanhei todo o debate, desde a primeira versão. Escutamos professores, diretores e técnicos das redes municipais para entender quais eram as sugestões que tinham em relação à primeira versão do documento. Entendo que o texto avança muito da primeira para a segunda versão.

ÉPOCA – Quais são os avanços de um documento para o outro?
Beatriz –
 Na primeira versão, os objetivos da educação infantil eram tratados de forma mais genérica. Agora, os propósitos estão separados por faixas etárias – 0 a 18 meses, 18 meses a 4 anos e 4 a 6 anos. Isso é muito positivo porque ajuda o professor a entender as diferenças do desenvolvimento da criança em cada subgrupo etário. Assim, a Base pula de uma estrutura de 30 objetivos genéricos para uma estrutura de praticamente 120 objetivos, com progressão de aprendizagens.

ÉPOCA – O que ainda precisa melhorar?
Beatriz – 
É importante fazer uma revisão dessa progressão, que muitas vezes não deixa clara, do ponto da aprendizagem, a evolução das competências. Existe a impressão de que cada faixa etária traz uma aprendizagem diferente, mas na verdade se trata de um desenvolvimento de habilidades. É preciso dar unidade para esse processo. 

ÉPOCA – Como você avalia a formação que professores recebem no Brasil para atuar na educação infantil?
Beatriz –
 Uma pesquisa do professor Daniel Santos mostra que, apesar de ter aumentado o número de professores da educação infantil com formação superior, nos últimos dez anos, o desenvolvimento e as aprendizagens das crianças nessa etapa não têm melhorado. Isso nos faz questionar a qualidade desses cursos superiores. Outra pesquisa mostra que apenas 2% dos cursos de pedagogia têm alguma disciplina sobre educação infantil. Já avançamos ao reconhecer que o professor dessa etapa precisa ser um especialista no desenvolvimento infantil e da pedagogia da infância. Mas ainda não conseguimos avançar na reformulação do currículo de cursos superiores, que precisam garantir esse conhecimento aos professores. A formação em pedagogia ainda é muito genérica.

ÉPOCA – Agora, com a Base, professores deverão receber formação para se adequar às novas referências?
Beatriz – 
Considerando que as universidades – principalmente as federais – ainda são resistentes a mudanças, é possível que, a partir da Base, os próprios estudantes façam um movimento interessante. Se eles sabem o que precisam dominar para ser professores de educação infantil, vão começar a cobrar isso de sua instituição. Esse movimento pode ser capaz de gerar uma mobilização das universidades para adequarem seus currículos às diretrizes da Base. O que o nosso documento – que foi inspirado no da Itália – propõe é algo superinovador. Para os professores que têm essa má formação e que têm uma experiência mais tradicional em educação infantil, a possibilidade de compreender o que há por trás dessa proposta de organizar um currículo por campos de experiência é algo muito difícil. Temos de pensar em uma formação para ajudar essa transição.

ÉPOCA – No Brasil, implementar aquilo que determinam leis e normas costuma ser a grande dificuldade. Preparar professores para seguir as diretrizes da Base deveria ser uma das prioridades depois da publicação do documento?

Beatriz – Isso é de fundamental importância. No Brasil, temos legislações superavançadas, mas as leis não costumam ter um plano de arquitetura que considere seu processo de implementação. Qual foi a arquitetura desenhada para essa política curricular que o Ministério da Educação está propondo? O que virá para além do documento, para que ele não seja mais um papel engavetado? É preciso investir em formação continuada [aquela que acontece simultaneamente à atuação profissional] para professores, ajudar as redes de ensino a entender o que muda no currículo. O governo federal, os estados e os municípios precisam definir como verificarão se o documento está sendo seguido com qualidade nas escolas. Não conheço nenhuma proposta que traga isso.



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