Artigos Educacionais, Célestin Freinet

A pedagogia de Célestin Freinet


A pedagogia de Célestin Freinet: Artigo enviado pelo nosso parceiro “Professor Marcos L Souza – Pedagogo – Psicopedagogo – Educador musical – Historiador.

A pedagogia de Célestin Freinet

Célestin Freinet iniciou sua pesquisa e ideário filosófico da França criando sua “metodologia” de ensino com bases psicológicas e educativas. A proposta pedagógica, de Freinet (1969, p.27-28) aborda uma nova orientação social e educacional trazendo sua visão que suscita uma ordem profunda e funcional, uma disciplina que é a própria ordem na organização da atividade e do trabalho, uma eficiência que resulta de uma racionalidade humana de vida escolar, todas as conquistas que, para além dos formalismos ultrapassados, concorrem para a formação harmoniosa dos indivíduos na renovada estrutura social. Freinet foi o idealizador de pedagogia do bom senso, baseada nos interesses e vivências das crianças, suas culturas, atitudes e valores. Ele criou essa proposta pedagógica acreditando que a contribuição da educação deveria ir além da alfabetização, e pautar-se no conhecimento e desenvolvimento de suas potencialidades e personalidade, através da relação dialética teoria e prática. Para ele se faz importante desenvolver nos alunos a sede pelo conhecimento; estes devem sentir interesse pela descoberta do novo e o professor deve possuir papel central na conscientização dos alunos.

A pedagogia do bom senso comprovava que o esforço de Freinet não foi de fazer com que os alunos aprendessem simplesmente a técnica do fazer pedagógico tento um papel apenas passivo no processo de ensino-aprendizagem, e sim, que essa pratica educativa fosse carregada de significância e, a partir desta, os alunos seriam sujeitos ativos no processo. Assim diz Freinet (1975, p.120): Porém a nossa pedagogia tem a pretensão de ser mais simples do que a pedagogia tradicional, pois é natural, quer dizer, baseia-se nos princípios e nos comportamentos do bom senso que qualquer um que possua, este bom senso compreende e admite.

A pedagogia Freinet surgiu para desenvolver e se trabalhar nos alunos suas habilidades, tornando-os seres autônomos, sociais, responsáveis e co-detentores de sua cultura e seus conhecimentos, além de também desenvolver as necessidades vitais das crianças através do trabalho e da cooperação. Para ele a prática educativa acontece diante de situações reais de construção e reconstrução do conhecimento. O aluno tem papel ativo e fundamental o seu próprio desenvolvimento não somente educacional mais social também.

As contribuições trazidas pela Pedagogia Freinet para a educação se traduzem pela filosofia, pela educação e pela prática. Suas técnicas pedagógicas trouxeram sentido às aulas tornando esta uma atividade prazerosa e significativa para os alunos. O papel do professor dentro dessa proposta se alicerça na junção da prática para a vivência, criando relações para que sejam desenvolvidos a cooperação e o respeito. A teoria Freinetiana é formulada a partir de suas experiências em sala de aula, realizando interlocuções, observações, anotações e experimentações. Trata-se de uma teoria pedagógica fundamentada em princípios e comprovada pelas suas pesquisas como: educação e trabalho, livre expressão, cooperação e autonomia. A relação que essa pedagogia traz com a vida social dos alunos é que auxilia o professor no seu fazer pedagógico, construindo com seus alunos a aprendizagem coletiva, diante de uma proposta real de interação por todos os sujeitos no processo educativo, respeitando a linguagem de cada um, tornando o aprendizado prazeroso e principalmente trabalhando a autonomia dos mesmos.

O trabalho na concepção de Freinet está relacionado a uma atividade que é própria do ser humano, algo que possui uma finalidade social determinada. “Em resumo, o trabalho como base educativa prepara a harmonia social pela harmonia individual, é um estimulante para o estudo abstrato, é finalmente, um fator inestimável de moralidade e sociabilidade” (FREINET, 1998, p.94). Em sala de aula, o trabalho refere-se a procedimentos necessários à prática pedagógica, tais como: elaboração de planos de trabalho, criação e confecção de materiais, rotinas, entre outros. Todos esses procedimentos devem ser elaborados em conjunto, docentes e discentes. O trabalho é uma prática social que pode libertar o homem de dogmatismos tornando este um ser atuante na sociedade de forma crítica e criadora, inclusive tornando-se um ser criador de sua própria educação.

O verdadeiro sentido da pedagogia de Freinet, está ligada através da relação de troca que o homem faz com o meio e, assim, descobre seus complexos de interesse. É nessa concepção que se demonstra a sensibilidade diante do comportamento da criança em um ambiente escolar e social em que vive, buscando desenvolver as potencialidades dos mesmos. O segundo princípio da pedagogia freinetiana é o tateamento experimental que trabalha a sensibilidade dos alunos. Para Freinet a aprendizagem é construída pela criança através da elaboração de hipóteses que são testadas podendo tornar-se uma apropriação concreta do conhecimento, e a pesquisa que a criança realiza usando o tateamento experimental possibilita essa análise.

Para Freinet (1969, p.85), “os únicos conhecimentos que podem influenciar o comportamento de um indivíduo são aqueles que ele descobre sozinho e dos quais se apropria”. Esse pilar presente no método natural de aprendizagem possibilita ao aluno um maior conhecimento do ambiente em que vive, através de suas descobertas, que são necessidades naturais do ser humano, utilizando o tatear, sondar, investigar o terceiro princípio da pedagogia freinetiana trata-se da cooperação. De acordo com Freinet, é através desta que as crianças e o educador se relacionam e desenvolvem suas responsabilidades e competências, havendo uma maior valorização mútua e, principalmente, a prática real da liberdade pessoal necessária. Diante da troca de experiências e conhecimentos entre os alunos, estes passam a se tornar seres autônomos com seus processos de aprendizagem, conseguem atribuir significância à prática educativa exercida e essa cooperação contribui consideravelmente para a formação de valores e atitudes nos sujeitos envolvidos.

A classe cooperativa se fundamenta nas relações interpessoais, assim sendo ela ajuda as crianças a multiplicarem as relações umas com as outras em todas as idades, e com os adultos, tendo com estes não mais uma relação de dependência e de submissão, mas de troca e amizade (Escolas são pessoas) José Pacheco. E a independência da criança vai se processando gradativamente, com consciência e responsabilidade. (Souza, 1996, p.1).

Na pedagogia freinetiana, a livre expressão é o quarto pilar, e é nesta concepção das habilidades expressivas que a criança é capaz de trabalhar seus sentimentos, emoções, pensamentos, conhecimentos prévios através de uma aprendizagem real e significativa e vivenciada. Quando a criança sente segurança e confiança no ambiente em que esta inserida, torna-se possível o crescimento e o desenvolvimento de suas potencialidades e de sua autoconfiança. O desenvolvimento afetivo neste ambiente é primordial através do mediador, para que o mesmo desenvolva aspectos a serem trabalhados de forma que a criança possa se sentir ao mesmo tempo que segura amada também. Os materiais didáticos utilizados por Freinet em suas aulas foram criados por ele próprio fundamentando a relação dialética que era sua proposta para o ambiente escolar. Santos (1996, p. 158) demonstra: Ao introduzir no ambiente escolar, técnicas educativas tais como o texto livre, o jornal, a imprensa, a correspondência, o plano de trabalho, a biblioteca de classe, o conselho cooperativo, Freinet dotou a sala de aula de condições estruturais e funcionais para uma prática educativa baseada na liberdade de expressão, no intercâmbio de ideias, no tateio experimental, no trabalho criativo e na cooperação. O texto livre, eixo possibilitador de aprendizagem que se consolida intrinsecamente na atuação do princípio da livre expressão, foi a primeira forma que Freinet apresentou sua pedagogia para o mundo no Congresso de Tours (1927), onde levou seus alunos e apresentou toda a coleta de materiais, advindas da impressão de textos e registros de desenhos, onde também demonstrou sua paixão e orgulho: “o Congresso de Tours, onde educadores apaixonados por seu ofício levavam seus trabalhos e seu entusiasmo, demonstravam que a livre expressão da criança encontrava-se na origem de uma inversão de conceito de educação”. Freinet (apud Freinet E, 1979, p.30). Um dos diferenciais de Freinet era a preocupação em atrair a atenção dos alunos para o processo de ensino-aprendizagem. As obras de Freinet demonstram como sua visão sobre a educação é atual e utilizada em todo o mundo até os dias de hoje. Um educador que no início do século XX desenvolveu importantes considerações acerca das relações interpessoais, dos assuntos sociais e políticos, e da prática pedagógica da atualidade

Freinet teve muitos facilitadores pedagógicos ligados à sua pesquisa, em que se destacam: plano de trabalho (gestão da aprendizagem), correspondência interescolar (comunicação social), auto-avaliação (autogestão da aprendizagem), jornal de parede (gestão entre o grupo), imprensa escolar (instrumento usado na comunicação), aula passeio (práticas que contribuem para a aquisição do conhecimento), livro da vida (instrumento para registro), fichário de consulta (gestão da aprendizagem). Para Freinet o trabalho deve ser realizado por grupos de alunos de maneira coletiva e cooperativa. Um dos instrumentos que representam a sua prática foi o limógrafo (um tipo de impressora artesanal). Este material foi o primeiro utilizado por Freinet caracterizando, assim, a imprensa escolar. O limógrafo era usado para registrar experiências extra-escolares dos alunos como, por exemplo, entrevistas, pesquisas e relatórios. A aula passeio (ato denominado as atividades de observação da esfera extra-escolar) surgiu diante da observação de Freinet sobre as necessidades dos alunos que se interessavam por questões fora do âmbito escolar. Freinet, no intuito de incentivar a participação das aulas e tornar estas mais prazerosas e significantes, começou a praticar aulas passeios envolvendo caminhadas e atividades ao ar livre.

O livro da vida trata-se de uma forma de registro da livre expressão. Este material foi idealizado como uma forma de catalogar os saberes construídos em sala de aula e fora dela. Nele, a criança podia demonstrar seus sentimentos expressando-se livremente, representando a sua realidade. Segundo Souza (1996, p. 8), “o livro da vida é um meio de incentivar na criança o gosto e o desejo de escrever, uma vez que nele está expresso o que ela disse, fez, viveu e compreendeu.” Um mecanismo de pesquisa é o fichário de consulta, uma enciclopédia artesanal, que possibilita aos alunos a organização de assuntos referentes as áreas de: gramática,geografia, matemática, entre outros.

O plano de trabalho e a correspondência escolar também fizeram parte das aulas de Freinet. O plano de trabalho se configura na proposta educativa Freinetiana como um planejamento feito entre o professor e o aluno no qual continha o encaminhamento das aulas buscando sempre a melhor maneira de realizá-las. A correspondência interescolar, atividade cooperativa de estreitamento das relações humanas, em que os alunos socializam informações, presentes, conhecimentos, entre outros também é uma técnica de ensino proposta para o ambiente escolar. Finalizando, na concepção de Freinet a avaliação é um mecanismo necessário a prática educativa. Sem ela, corre-se o risco de deixar a atividade educativa improdutiva e sem significância. Nesse sentido, a auto-avaliação e as fichas criadas por Freinet, foram pensadas para o registro dos progressos e, assim, do desenvolvimento.

A maneira que Freinet vê o ato educativo possibilita o entendimento de que é impossível que haja neste a neutralidade, adotando como embasamento uma consciência política e recusa de manipulação do homem. Em sua pesquisa ele demonstra que a ação pedagógica pensada e projetada, possui grande relevância no processo de libertação e conscientização humana, mesmo tendo ele atuado em época diferente. Nas aulas, a forma que Freinet trabalhava deixava clara a sua contribuição para o desenvolvimento da autonomia, juízo crítico e responsabilidade nas crianças. Práticas como a “expressão livre” dava criatividade e liberdade aos alunos e estes tinham palavra e vida no processo de ensino-aprendizagem. Para que haja a pesquisa o professor precisa saber pensar, que é pôr em dúvida suas certezas, suas verdades para aprender o conhecimento já existente e aquele que ainda não existe.

A relação dialógica e cooperação entre professor e aluno são princípios defendidos por Freinet. Essas práticas necessárias em sala de aula possibilitam a problematização, compreensão e transformação da realidade. A modificação do espaço escolar é enfocada por Freinet mediante de métodos ativos de ensino, da cooperação e comunicação dos caminhos de meio natural e social; enfatizando o trabalho educativo ligado à ação e a organização social e política do mundo adulto. Freinet traz em sua proposta pedagógica um método natural de ensino, mostrando que o desenvolvimento da criança se dá de forma gradativa, tendo relação com as necessidades próprias da criança e as condições fisiológicas, psicológicas e técnicas. A formação do homem integral era vista por Freinet como um direito de todos os cidadãos, que passaria de um plano concreto de vida para um mais abstrato quando conquistassem a liberdade. Este pensamento está claro em todo o trabalho de Freinet, tanto no aspecto educacional, quanto no aspecto político e social. Isto_ porque ele acreditava numa escola contextualizada, nascida no seio da comunidade, dinâmica e integrada, principalmente, à cultura em geral.

Para que houvesse educação, ou melhor, uma nova educação, era necessária uma grande modificação da sociedade, da política, da ética, do cotidiano dos indivíduos e dos grupos sociais. Suas raízes de pensamento refletem uma educação para a autonomia e formação de cidadãos.

Freinet fez surgir um projeto político dedicado ao aprimoramento de um direito social: a educação.


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